Um avanço significativo na área surgiu com a descoberta recente de que a proteína BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro, na sigla em inglês), quando liberada no hipocampo (área do cérebro localizada na parte inferior do lobo temporal), determina se uma memória persistirá ou não por mais de dois dias (ver ‘Proteína do futuro’). O trabalho foi realizado no Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, coordenado pelos neurocientistas Iván Izquierdo e Martín Cammarota, em parceria com o Laboratório de Neurorreceptores da Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires, dirigido pelo também neurocientista Jorge Medina.“Nos ratos que estudamos, a definição do tempo que a memória irá perdurar se dá 12 horas após sua aquisição”, relata Izquierdo, que está no topo da lista dos pesquisadores brasileiros com maior número de citações em publicações científicas internacionais.
O neurocientista explica que as memórias se formam o tempo todo e apresentam diferentes tipos: a de curta duração (que dura milissegundos e serve apenas para consolidar outro tipo de memória), a que dura três ou quatro horas (usada em conversas e em atividades do dia-a-dia) e a de longa duração (que leva várias horas para se consolidar e persiste por dias, meses ou anos).
A pesquisa, publicada em fevereiro deste ano na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), apresenta um avanço em relação aos resultados divulgados pelo mesmo grupo em janeiro de 2007 na revista Neuron, que apontavam a descoberta do mecanismo em si da persistência da memória no hipocampo, definindo se ela poderá durar dois ou mais dias.
No estudo recente, o grupo descobriu que o BDNF é necessário e suficiente para mediar esse processo e demonstrou o mecanismo molecular de seu efeito. A importância da descoberta atual é que ela permite a pesquisa e o posterior desenvolvimento de uma terapia farmacológica, já que o processo de permanência da memória falha com o avanço da idade. No entanto, adiantam os pesquisadores, ainda estamos muito longe de uma pílula da memória.
Mas fatores comportamentais podem influir positivamente na formação e na persistência da memória, lembra Izquierdo. Segundo ele, a prática é o melhor jeito de fazer com que o mecanismo de formação e constância da memória funcione bem. “A melhor prática é a leitura”, recomenda. “Ler reduz a perda de memória, que costuma surgir com o avanço da idade; até a doença de Alzheimer se atrasa e é menos agressiva com o exercício da leitura.” Mas há também fatores que podem influir negativamente, como a maioria das drogas de abuso, inclusive o álcool.
Quebra-cabeça
A complexidade do mecanismo de aquisição, formação e persistência de uma memória é tão grande, que ainda é difícil falar de resultados práticos concretos. Mas os avanços ocorrem no âmbito da pesquisa. “Temos peças do quebra-cabeça, mas estamos longe de completá-lo”, afirma Martín Cammarota.
O neurocientista explica que a memória é muito mais complexa do que se imagina. “Ela não é uni- mas multidimensional. Não se pode mexer em uma memória apenas; cada coisa que identificamos como uma memória é formada por múltiplas memórias”, afirma. Segundo Cammarota, uma memória envolve camadas e camadas de informações relacionadas entre si. “A memória da sua namorada, por exemplo, não é só o rosto dela, mas tudo o que você viveu com ela; você identifica essa memória como uma só, mas na verdade são múltiplas.”
Exclusividade
Em todo o mundo, pesquisadores investigam diferentes aspectos do complexo mecanismo da memória. Em geral, esse trabalho é feito em conjunto. O grupo de Izquierdo, Medina e Cammarota pesquisa o tema há mais de 20 anos. O que torna esse grupo diferente é que ele é hoje um dos mais citados do mundo no campo dos estudos sobre memória. Além disso, suas últimas descobertas são exclusivas, pois até agora ninguém havia estudado a persistência da memória, e isso pode ter grande impacto no avanço da neurociência nos próximos anos.
Agora os esforços do grupo se voltarão para o melhor entendimento do papel da substância no hipocampo (12 horas após a aquisição da memória nos ratos estudados) e para a realização de observações não-interventivas em seres humanos – uma etapa que já está em andamento.
Resta saber se, além de fatores comportamentais, será possível, por meios farmacológicos, fazer com que o processo de formação e consolidação das memórias seja mais eficaz e que as doenças degenerativas (como Alzheimer) não progridam. Mas daqui até lá há um longo caminho a percorrer.
Proteína do futuro
O que se sabe sobre a proteína BDNF é que ela tem papel preponderante no mecanismo de persistência da memória, que define se esta durará dois ou mais dias. O processo se dá na região do cérebro denominada hipocampo. Em linhas gerais, o mecanismo ocorre da seguinte forma nos ratos estudados pelos neurocientistas Iván Izquierdo e Martín Cammarota. O animal é exposto a algum tipo de situação, que poderá se tornar um aprendizado. Cerca de três ou quatro horas mais tarde, essa memória estará formada. Exatamente 12 horas depois, define-se no hipocampo quanto tempo essa memória irá durar, processo esse protagonizado pela proteína BDNF. A quantidade da proteína é diretamente proporcional ao tempo de duração desse aprendizado, o que significa que sua manipulação pode representar um aumento desse tempo de sete a dez vezes, conforme observado pela equipe em laboratório.
Via: André Marques em HypeScience
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