Funcionários que sugerem inovações e melhorias para a empresa são raridade no mercado de trabalho, informa pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). De acordo com o levantamento da entidade, os chamados “intraempreendedores” - aqueles que apresentam uma postura engajada no meio corporativo - correspondem a apenas 0,6% dos trabalhadores brasileiros.
Não que não existam profissionais com esse perfil espalhados por aí. O problema, segundo os especialistas, está na falta de incentivo das empresas a esse tipo de atitude. As companhias raramente investem em inovação, o que acaba desestimulando o comportamento empreendedor no meio corporativo e até ocultando talentos que poderiam render muito mais para as corporações. Muitos trabalhadores com essas características preferem até se manter anônimos ou sair das empresas para tocar um negócio próprio.
Para Paulo Okamoto, presidente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a postura passiva dos funcionários se deve a uma gestão antiquada por parte das empresas. “É um problema cultural do Brasil. Como herança da Ditadura, ainda somos um país muito autoritário”, avalia. “Há um clima de repressão nas relações hierárquicas nas empresas que acaba desestimulando novas ideias e inibindo a inovação.”
Ao ser ousado, lembra Okamoto, o funcionário está correndo o risco de errar. “E o erro, infelizmente, não é bem assimilado pelos gestores brasileiros?, observa o presidente do Sebrae. ?Por isso, as pessoas ficam com medo de perder seus empregos e acabam optando por uma postura mais submissa, que é menos arriscada.”
Ênio Pinto, gerente de atendimento do Sebrae, ressalta ainda que o modelo educacional brasileiro também é responsável por tolher a cultura empreendedora. “As escolas ensinam a decorar e repetir, enquanto que, para ser um empreendedor, é sempre necessário reciclar velhos conceitos, criar novas soluções e ser propositivo”, analisa o gerente. “Há, portanto, um descompasso imenso.”
A consequência de combinar uma educação limitadora a uma gestão pouco participativa é desastrosa. “As empresas perdem oportunidades, deixam de inovar, abrem espaço para concorrência internacional e, por fim, transformam o Brasil em um país menos competitivo.”
Para o professor de Empreendedorismo e Estratégia Empresarial, da Trevisan Escola de Negócios, Irani Cavagnoli, a mudança de cultura precisa partir das empresas. “A gestão da inovação não é praticada no Brasil, que apenas implementa a novidade vinda do exterior. Estamos sempre a reboque. Isso precisa mudar até para a empresa sobreviver no mercado global”, diz Cavagnoli.
Segundo Alexandre Moreira Nascimento, professor de empreendedorismo da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), o investimento em profissionais empreendedores não fica limitado a grandes corporações ligadas ao setor de tecnologia. “Isso pode ser aplicado a pequenas empresas, comércios, prestadores de serviços, entre outros. Investir nessa área resulta em ganho de produtividade e de competitividade. As agências de propaganda são exemplos bem sucedidos no Brasil, pois são reconhecidos mundialmente”, ressalta.
O diretor comercial da empresa de recursos humanos Manpower, Pedro Guimarães, afirma que profissionais com o perfil de intraempreendedores não faltam e são até disputados por grandes empresas, mas precisam ser mais estimulados. “Há muitas pessoas com esse tipo de atitude, que são muito capacitadas. A questão é que poderia haver mais gente assim se a cultura brasileira não deixasse de incentivar esse perfil”, comenta.
PERSISTÊNCIA - Entretanto, a falta de incentivo da empresa a uma postura empreendedora por parte de seus funcionários não pode servir de desculpa para que esse simplesmente desista de apresentar suas ideias. A saída, dizem os especialistas, é propor inovações sempre respaldadas em dados que possam mostrar que a ideia tem tudo para dar certo.
Foi o que fez o advogado Clayton Gomes, que criou o departamento jurídico da Espro, uma ONG (Organização Não Governamental) voltada ao treinamento de jovens aprendizes. Quando foi contratado, Gomes percebeu que o crescimento da organização dependia fundamentalmente da agilidade na elaboração e aprovação de contratos. “Perdíamos muitos parceiros porque os contratos venciam e sequer propúnhamos uma renovação”, conta Gomes. “Isso acontecia simplesmente porque não tínhamos o menor controle sobre os contratos e todo o serviço jurídico era terceirizado.”
Gomes então percebeu que, ao criar um departamento jurídico próprio e estreitar a relação com os clientes, a Espro poderia economizar e até mesmo crescer. “Levei a sugestão até a diretoria e mostrei com dados que poderia funcionar”, diz. Gomes reconhece que a abertura dada por seu chefe facilitou a apresentação da proposta. “Mas acho que, mesmo quando o chefe não é tão receptivo, faz parte da postura do bom profissional defender suas ideias e tentar emplacá-las na sua empresa.”
fonte: http://www.zap.com.br/